Happier Than Ever
Proponho aqui um breve diálogo entre as jovens divas do pop rock do momento.
Olivia Rodrigo canta:
I hope you’re happy, but not like you were with me
I’m selfish, I know, can’t let you go
So find someone great but don’t find no one better
I hope you’re happy, but don’t be happier
Em tradução livre:
Eu espero que você seja feliz, mas não como foi feliz comigo
Sou egoísta, eu sei, não consigo deixar você ir
Então ache alguém incrível mas não ache ninguém melhor
Espero que seja feliz, mas não seja mais feliz
Já Billie Eilish canta:
When I’m away from you
I’m happier than ever
Wish I could explain it better
I wish it wasn’t true
Traduzindo livremente:
Quando eu estou longe de você
Estou mais feliz que nunca
Desejaria poder explicar isso melhor
Eu desejo que isso não fosse verdade
Antes de partir aos pormenores, deixo aqui estas fotos de encontros das duas:
As fotos são meramente enfeites para o deleite de um mundo pop que não necessita da rivalidade entre mulheres como tantas vezes necessitam os fãs. Meu diálogo entre as duas músicas não parte da ideia de um diálogo entre as artistas, muito menos entre suas vidas pessoais. Meu diálogo se dá apenas e necessariamente na minha experiência enquanto ouvinte. Podemos começar?
O que é ser feliz com alguém?
O que é ser feliz sem alguém?
O que é ser feliz a partir de alguém?
O que é ser feliz a partir da ausência de alguém?
O que é não ser feliz?
O que é ser feliz sozinho?
Ressalto aqui uma bela paródia pandêmica de versos de Jobim, Vinícius e Miúcha eternizados pelas aberturas do universo novelístico do Leblon de Manoel Carlos:
Fundamental é mesmo o arroz, é impossível ser feliz faminto.
Apenas uma provocação.
Afinal, é disto que se tratam meus textos desde que comecei: Provocações auto-investigativas que por acaso reverberam no pequeno grupo de leitores que crio e alimento a partir de laços literários, estéticos e afetivos. O laço muito provavelmente se dá a partir da diferença que nos marca, eu autor e meus fiéis leitores-autores. Fiéis por serem poucos e constantemente importunados pela minha pessoa. Não que se sintam importunados, pelo menos não parecem se sentir. Eu que me sinto importunando, o constante deslize da auto-sabotagem e da auto-depreciação relacionado a inseguranças passadas. Principalmente a de ouvir das pessoas com quem mantive talvez meus laços afetivos mais profundos e duradouros de que odiavam ler poesia, achavam o mundo dos escritores pedante, não conseguiam lidar com as exigências poéticas da vida, queriam simplesmente se fartar e se distrair. Não os culpo. Já tenho o capitalismo para culpar por toda e qualquer coisa que me dê errado. E tenho a mim mesmo para sentir culpa mesmo que racionalmente eu consiga convencer-me de que não há culpado algum.
A diferença que nos marca é similar à diferença que comentei no primeiro texto que escrevi neste blog. Similar pois todos com quem partilho minha escrita parecem sentir uma diferença que os marca desde que podem se lembrar, e que tentam definir de diversas formas mas nunca são inteiramente bem sucedidos. Mas cada um tem sua própria forma de diferença. Somos todas e todos unidos por sermos diferentes dos iguais. E somos separados por sermos diferentes uns dos outros.
Considero-me sempre o famoso amigo quase-entre-nós. Participo, sim, da vida afetiva comum dos que considero ‘os iguais’. Os iguais são aqueles que conseguem se reunir em grupos, propósitos, interesses afins, atividades afins, gostos afins, objetivos comuns e idealizações de mundo aparentes. Formam suas panelinhas e seguem dentro delas por quase toda uma vida. Mudam uma ou duas pessoas nas panelas, talvez por falta de espaço ou novas panelas, mas a receita é sempre a mesma. Os iguais não são tediosos, nem deixam de ser autênticos, mas não tem ou não valorizam certamente uma diferença que os marca desde sempre. Podem ter momentos de diferença, mas estes acontecem apenas por conflitos como estar na panela errada. Uma vez que se encontram dentro da receita mais adequada, saboreiam a vida com plenitude e confiança, mesmo que tenham problemas. É como diz o provérbio budista: Felicidade não é a ausência de problemas, mas saber resolvê-los.
Os budistas são uma panela peculiar. Extremamente diferentes de toda a maior panela mundial, a panela que posso até chamar de fogão ou forno geral onde todas as panelas estão, o tal Ocidente cristão. Mas ainda assim uma panela. Todos ali são diferentes tanto dos ativos quanto dos reativos à maior panela do mundo. Mas se esforçam para ser totalmente iguais entre si.
Nós, os diferentes com quem partilho minha escrita e minha condição de marcado desde que posso me lembrar, não nos encaixamos em panela alguma. Muito provavelmente passamos a maior parte de nossas vidas buscando uma panela em que possamos nos encaixar. Mas as abandonamos ao perceber que talvez não sejamos ingredientes. Talvez sejamos o fogo. Ou o que estraga a receita. Mas de fato não sabemos plenamente quem somos ou aonde nos encaixamos. Nos sentimos parte das coisas não de uma forma pertencente, mas de uma forma empática. Não somos parte do nós, mas gostamos de nos ver dentro do olhar do outro, e de ver o outro dentro do nosso olhar. Não costumamos gostar de ser lideranças, mas quando somos, tendemos a sermos terríveis. Mas é óbvio que temos sempre diversos comentários e posições sobre toda e qualquer liderança vigente.
Os iguais se revoltam e se unem.
Os diferentes se revoltam e se encasulam.
Quanto mais falo dos diferentes, mais parecemos uma panela.
Mas não se esqueça da categoria inicialmente mencionada: O quase-entre-nós.
Pulamos entre panelas, indo e voltando. Nunca nos fixamos, mas sempre nos movimentamos. Não somos os amigos com quem os grupos contam e convidam sempre. Somos os amigos que aparecem por conta própria, de vez em quando ou de vez em nunca, e ficam por tempo o bastante para parecerem participar mas perceberem que não participam. Este é o fardo e a responsabilidade de ser um diferente.
Todos os diferentes são diferentes também entre os diferentes.
Os mais populares entre os impopulares.
Ou os mais impopulares entre os populares.
Não se unem no sentido de formar um círculo de relações, mas uma teia.
Não uma teia fechada, completa, regular e bela.
Mas uma teia fluida, cheia de buracos, fraca, que o vento leva.
Não somos as aranhas que se alimentam muito bem.
Somos as aranhas que deixam os insetos passarem.
Prometi um diálogo entre músicas mas entreguei até agora somente um breve apanhado sobre toda a minha teoria da diferença.
Mas toda essa explanação fará sentido.
Eilish e Rodrigo são, de longe e de perto, diferentes.
Andam sozinhas, têm identidade própria.
Já tentaram e ainda tentam, mesmo que se frustrem, fazer parte de algo.
Mas inevitavelmente se vêem sempre como portadoras de uma inovação estranha, que não se sabe se mudará os rumos para todos ou se passará despercebida quando o futuro olhar de volta para nossa História.
Billie e Olivia aparentemente se tornaram amigas. Mas não do tipo que dormem uma na casa da outra todo fim de semana. Afinal vivem de turnês e gravações pelo mundo inteiro, agendas cheias tanto internas quanto externas. São o tipo de amizade que se dá na teia dos diferentes: Pessoas que aparecem e somem, mas não cobram umas das outras sobre aparecer e sumir. Só cobram e são cobradas disso quando tentam estar entre os iguais. E sobre isso são as duas músicas que citei no início do texto.
Como todo bom pop, o jovem sempre se engana em cair no significado mais fácil para toda e qualquer música: Oh, é uma canção de amor!
Mas amor só é o mais popular dos afetos porque somos constantemente ofuscados pela lógica da cisheteronorma.
A amizade, a rivalidade, o ódio, o cansaço, o tédio, o empoderamento, a auto-estima, a auto-depreciação, a confiança, a covardia, a raiva, a paciência, a parcimônia, a temperança, o temperamento, o desejo, a colisão, o conflito, a queda, a ascensão e a identidade: Toda e qualquer expressão sentimental pode e sim ocorre e ocorrerá longe ou perto de qualquer que seja a definição de amor. Só depende de nós. Do nosso olhar individual e coletivo. De certa forma, de nossa maturidade e inteligência emocional.
Saber interpretar além do óbvio não é algo que necessita de pré-requisito, apesar de um pré-requisito sempre ajudar.
Interpretar além do óbvio só depende de uma coisa: Sentir além do óbvio.
E isso acontece em diversas formas e estilos de viver a vida.
Diversos caos e circunstâncias. Causalidades e faltas de sentido.
Nenhuma muito específica, nenhuma muito comum.
Acontecem tanto entre iguais quanto em nós diferentes.
Mas são o que dá unicidade a um olhar.
Não confunda unidade com unicidade.
Unicidade é ser único.
Unidade é ser um.
Unicidade é relativa a autenticidade e originalidade. À surpresa.
Unidade é relativa ao pertencimento e às condições. Ao esperado.
Pareço muito querer destacar-me do resto da humanidade, mas quem nunca?
Não é que seja ridículo ou menor ser humano mas… Ninguém escolheu.
Eu não pedi pra nascer
Eu não nasci pra sofrer
Nem vou sobrar de vítima
Das circunstâncias
Cadê o diálogo entre as canções, Lucas?
Sobe e relê os versos depois de ter lido tudo isso.
Ache alguém incrível, mas não ache alguém melhor.
Não queria ser mais feliz que nunca longe de você.
Isso é sobre não aguentar a frequência afetiva do mundo.
Isso é sobre não saber nem querer ser esquecível.
Sobre ter identidade única e distante, mas tentar ter identidade perto.
Tentar, se frustrar, perceber.
Perceber que a diferença que sempre esteve aí é inevitável.
E que o mundo dos iguais nunca vai abordá-la, incluí-la.
E mesmo assim temos a esperança e a ousadia de tentar.
Tentar, se frustrar, sofrer e perceber.
Perceber que é só isso, acabou, não tem mais jeito, boa sorte.
Há tantas pessoas especiais…
Gostastes deste formato de texto, fidelizado leitor/a?
Gostaria de ver mais deste tipo, ou prefere que eu me mantenha nos relatos expositivos de minha vida própria e pessoal para o deleite de seus olhos que gostam de me conhecer, e quem sabe talvez de me fofocar?
Não que eu não goste de me sentir exposto, nem que eu goste.
Mas a farsa de escrever somente para mim mesmo acabou.
Eu sei que você lê, eu gosto que você leia.
Eu quero ouvir sua opinião, eu quero fazer parte de algo.
Eu quero ter uma panela de diferentes.
Ou eu quero unir nossas chamas.
Dependendo de quem é você, eu quero até comê-lo inteiro.
Ou então servir-me numa bandeja de prata, com uma maçã na boca.
Eu não consigo mais fingir que falo só comigo mesmo.
Viver dentro da minha cabeça, do meu corpo, do meu quarto, da minha alma.
Eu agora quero viver dentro de você.
Deixa?
Permite?
Cuidado.
Eu posso ser venenoso.
Ou gostaria de ser.
Ou talvez já me disseram que sou, mas não sei se concordo.
De qualquer forma, muito obrigado por acompanhar até aqui.
Finda hoje ou começa hoje a primeira ou a segunda semana.
As únicas irregularidades de escrita e publicação neste diário foram devido a constantes pancadas mortais de dores irrefreáveis nas costas.
Mas estou bem, me medico, me corrijo e me vigio.
Não faço isso sozinho.
Não se preocupe.
Ou se importe.
Você que decide.
Mas só se você quiser.
Acho que gosto de parágrafos
Gosto de prosa poética
Gosto de alguns versinhos
E de umas linhas pobres
E eu gosto de meninos e meninas...
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